Correndo atrás desde o início do ano, fico devendo praticamente tudo que estou lendo, por absoluta falta de tempo de atualizar este blog que vos fala desde 2006. Mas, antes tarde do que nunca, vou comentar pelo menos a novela que lemos no clube de leitura este mês, “A morte de Ivan Ilitch”, de Leon Tolstói (L&PM Pockets), uma pequena obra-prima.

Quando a gente estudava os gêneros literários, aparecia romance, conto e novela. O primeiro, longo e complexo; o segundo, curto e direto; o terceiro, intermediário, entre um e outro. A história escrita por Tolstói no final do século XIX se encaixa perfeitamente na definição de novela, por ser mais curta que um romance (sobretudo aqueles épicos dele, como “Guerra e paz”), mas bem mais complexa do que um conto como os mais típicos do gênero.

Como o título do livro não nega, Ivan Ilitch começa a história morrendo. Após especularem sobre quem vai herdar o cargo dele, os colegas se dão ao trabalho de ir ao seu velório apressadamente, doidos pra chegar logo à jogatina e deixar o morto descansar em paz (“antes ele do que eu”). Hipocrisia, sarcasmo, ironia, a frialdade humana que grandes escritores, como o clássico russo, dominam e revelam tão bem.

Após essa cena inicial, a narrativa volta à vida de Ivan Ilitch, novamente espaço de constante superficialidade e vazio, mas cuja pobreza o burguês ascendente só vai perceber quando ficar doente e entrar no turbilhão de dor e decadência que o levará à morte. Nunca li nada mais forte sobre o caminho inexorável rumo à “indesejada das gentes” do que esse mergulho de Ivan Ilitch pra dentro do saco negro e fundo que o traga irrefreavelmente.

A alternância entre desespero e esperança (de cura), a revelação, passo a passo, de quão pobre e sem sentido foi sua vida, o encontro de uma única relação mais verdadeira em meio a tanto desamor e descaso como ele vive em família (no caso, com o empregado que o conforta nas noites de mal-estar intolerável) – tudo isso faz da novela de Tolstói uma leitura vertiginosa, tocante, hipnotizante. Leio muito, leio sempre, mas poucas vezes li autor tão certeiro como este, numa obra tão perfeita.

Uma curiosidade que debatemos no nosso clube de leitura foram as traduções, já que cada um leu uma diferente, de edições diversas. Invejei quem teve acesso á tradução feita por meio tio Milton Amado, um craque nessa arte – e em tantas outras.

Beijos!

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2 thoughts on “Pequena obra-prima de Tolstói

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