O novo romance de Clara Arreguy (Praça Esperanto – memória para esquecer, Outubro Edições) prima pela sinceridade. É um texto inspirado, suave, muito engraçado, em certos momentos, ao mesmo tempo que faz pensar, refletir, analisar. É dividido em duas partes autônomas, que juntas compõem uma tessitura bem amarrada. Na primeira, o leitor se delicia com os “causos” da grande família Arreguy Maia. Pelas minhas contas, eram nove filhos. Para escrever esses capítulos, a autora utiliza linguagem desenvolta e desenrolada, fluida e leve, até nos momentos de dor e dificuldades. Trata-se da Belo Horizonte dos anos sessenta e setenta, cidade com que todo mineiro sonha, especialmente as meninas de Inhapim, que dista quase trezentos quilômetros da capital. Aí ficamos sabendo que Clara teve uma infância alegre e muito solar, como ela mesma. Não sem algumas dificuldades, é claro, mas a família, muito unida, convivia com muitas outras. Quem teve uma meninice assim geralmente aprende, desde cedo, o que para muitos de nós é difícil, como a socialização, por exemplo. A ideia do coletivo perpassa todos os casos e anedotas contados. Vemos diante de nós as ruas e praças de BH e uma infinidade de barzinhos, o ponto alto da capital dos mineiros. Aprendi bastante sobre um lugar que para mim sempre foi apenas passagem entre Brasília e Inhapim. Nunca estive lá a passeio. Gostei da maneira como a narradora conta a vida da Clara — que pode não ser exatamente a vida da Clara o tempo todo. Pelo texto ficamos cientes de que ela saiu da casa dos pais com 42 anos, o que achei incrível, em se tratando de personagem rica em experiência. Creio que a casa era tão boa e a comunicação muito mais tranquila do que na maioria das casas que eu conheço, o que de certa maneira atrasava “o voo para outras paragens.” Quanto a mim, saí da casa de meus pais aos 14 anos, muito pouca idade para essa autonomia, digamos.

Na segunda parte do livro, Praça Esperanto, BH é revisitada anos mais tarde, vista com o novo olhar voltado também para a capital de todos os brasileiros. Temos aí a solidão que a personagem sentiu nos primeiros meses, o choque de paisagens tão diferentes, o planalto se imiscuindo na montanha. A política, já presente na primeira narrativa, se torna um tema muito importante na segunda. A ditadura militar-civil e sua herança destrutiva, as pessoas que desaparecem ou se desligam.

Não há como ficar indiferente ao livro de Clara Arreguy, que lembra cristal de Murano, por seu artesanato e sua carpintaria delicados e fortes ao mesmo tempo. Leiam, vocês vão gostar.

Rosângela Vieira Rocha, escritora

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